Entre 2009 e 2012, trabalhei como médico do Porto Alegre FC. Ali aprendi, na prática, uma lição que trago comigo até hoje no consultório: o esporte é um dos melhores remédios que existem para o coração — desde que o coração esteja pronto para ele.
De tempos em tempos, uma notícia trágica reacende o assunto: um atleta jovem, aparentemente saudável, que sofre um mal súbito em campo ou na corrida. São eventos raros, mas na grande maioria dos casos existe uma condição cardíaca silenciosa por trás — muitas delas detectáveis numa avaliação bem feita.
Quem precisa de avaliação pré-participação?
- Quem vai sair do sedentarismo — especialmente acima dos 35–40 anos ou com fatores de risco (pressão alta, colesterol, diabetes, tabagismo, histórico familiar);
- Atletas amadores que aumentam a carga — quem vai encarar a primeira corrida de rua, o primeiro ciclismo de longa distância, o crossfit mais intenso;
- Atletas federados e profissionais — para os quais a avaliação periódica é rotina obrigatória;
- Quem sente algo durante o exercício — dor ou aperto no peito, falta de ar desproporcional, palpitações, tontura ou desmaio. Nestes casos, a avaliação é urgente, não opcional.
O que a avaliação investiga
A base é sempre a mesma: história clínica detalhada (incluindo casos de morte súbita na família), exame físico e eletrocardiograma de repouso. A partir daí, conforme a idade, o nível de exigência do esporte e os achados iniciais, podem entrar em cena o teste ergométrico — que observa o coração exatamente na situação que interessa, o esforço —, o ecocardiograma e, em casos selecionados, o Holter de 24 horas ou exames mais avançados.
Um detalhe que costuma surpreender: o coração de quem treina muito se adapta — câmaras um pouco maiores, frequência de repouso mais baixa. É o chamado “coração de atleta”, uma adaptação benigna. Diferenciar essa adaptação normal de uma doença estrutural é justamente o trabalho do cardiologista do esporte.
“O objetivo nunca é afastar você do esporte. É garantir que você possa praticá-lo pela vida inteira.”
Liberado — e acompanhado
Na imensa maioria das vezes, a avaliação termina com a melhor das notícias: liberação plena para treinar. E com bônus valiosos — zonas de frequência cardíaca orientadas para o seu caso, ajustes de hidratação e recuperação, e um plano de reavaliação periódica. Quando algo é encontrado, quase sempre há caminho: tratamento, adequação da modalidade ou da intensidade, e retorno seguro à atividade.
Esporte é saúde, longevidade e alegria. A consulta pré-participação existe para que nada — absolutamente nada — atrapalhe isso.